A exposição “Return to Bog Walk 2025-2026”, da autoria de Cecilia Bengolea, estará patente na SOLAR – Galeria de Arte Cinemática, entre 19 de setembro e 7 de novembro de 2026.
A proposta da artista com este trabalho é um regresso a Bog Walk, local onde foram filmados Lightning Dance e Dancehall Weather, a cerca de trinta quilómetros de Kingston, Jamaica. Cecilia Bengolea pretende criar um filme de quinze minutos que acompanhe o regresso - ou a tentativa de regresso - de um grupo de bailarinos jamaicanos à sua terra natal, cada um incorporando uma geografia pessoal e espiritual moldada pelo deslocamento económico forçado. Alguns viram-se sem documentação e retidos em novas terras, como Oshane Overload Skankaz, que vive atualmente no Alabama, EUA, um estado cujo solo encerra histórias profundas e ainda não resolvidas de escravatura, migração e sobrevivência.
Este trabalho explora a forma como a dança funciona enquanto memória incorporada e resistência, um refúgio onde pessoas deslocadas podem permanecer ligadas às suas origens, ao mesmo tempo que reconfiguram novas identidades no exílio. O projeto será dividido entre duas geografias: a Jamaica e o Sul dos Estados Unidos.
Os bailarinos que tiverem possibilidade de o fazer serão filmados no seu regresso à Jamaica, num ato simultaneamente simbólico e literal de reapropriação do lugar. Estas sequências serão conduzidas pelas suas performances improvisadas em ambientes naturais e urbanos, restabelecendo uma ligação com a terra através do movimento. A sua coreografia não irá simplesmente ilustrar a nostalgia, mas demonstrar como a casa vive dentro do corpo e como pode ser despertada novamente, mesmo após longos períodos de ausência.
No âmbito deste projeto, a artista viajará até ao Alabama para filmar Oshane — impossibilitado de regressar a casa — a dançar numa paisagem carregada pelo trauma da história negra nos Estados Unidos. Os seus movimentos irão expressar simultaneamente rutura e resiliência, traçando um refugium pessoal dentro de um território desconhecido. Através desta justaposição, o filme irá questionar o que significa transportar a própria terra natal dentro de si, criar raízes no exílio e sobreviver através do ritmo.
Este filme dará continuidade à investigação sobre a forma como a eletricidade, tanto literal como metafórica, anima o corpo. O suor, a chuva, a memória e o som funcionarão como materiais condutores que diluem as fronteiras entre passado e futuro, interior e exterior, terra natal e exílio. O espírito da Refugia surgirá não através de gestos monumentais, mas nos micromovimentos da resiliência, em atos improvisados de preservação e metamorfose.
Este vídeo irá reunir, para além da dança e da performance, uma série de entrevistas que a artista começou a filmar em 2017, numa tentativa de restituir um contexto e um conteúdo que, sem palavras, poderiam permanecer misteriosos.
“Return to Bog Walk” apresentará a dança como uma forma de refugia, um espaço de sobrevivência, transformação e memória coletiva. O filme contará com artistas jamaicanos de performance e dancehall, todos eles atualmente refugiados económicos, a viver longe da sua terra natal devido a dificuldades financeiras e à escassez de oportunidades.
Os grupos apresentados neste filme são Black Eagle e Overload Skankaz. Os seus movimentos transportam a memória da sua terra, da sua comunidade e da sua cultura. O suor e a chuva tropical fundem-se na imagem, dissolvendo as fronteiras entre o mundo interior e o exterior. Nestes momentos, o corpo que dança transforma-se num abrigo, num arquivo de experiências e num recipiente para o futuro.
Breve biografia Cecilia Bengolea
Cecilia Bengolea é uma artista que trabalha entre a performance, o vídeo e a escultura, utilizando a dança como um meio de empatia radical e de troca emocional. A sua prática artística investiga o corpo, individual e coletivamente, enquanto escultura viva e porosa, animada pela memória cultural, pela força espiritual e pelos elementos naturais. Para a artista, o movimento é uma linguagem de resiliência e transformação, moldada através da colaboração e da troca.
“Os movimentos são factos. Fundamentalmente, o meu trabalho centra-se no corpo a inventar as suas próprias fontes, o seu próprio treino. Com que finalidade? Apagar completamente a violência da memória do corpo — do meu próprio corpo, mas também do corpo social que constituímos coletivamente. Os movimentos que crio têm um denominador comum: não existe ataque nem hierarquia entre os movimentos. É por isso que a dança é política.”, refere a artista.
Desde 2005, Cecilia Bengolea tem trabalhado com artistas de dancehall, como Craig Black Eagle, Bombom Dancehall Queen e Damion BG, e criou trabalhos em colaboração com François Chaignaud para companhias internacionais, incluindo o Ballet de Lyon, o Ballet de Lorraine e o Pina Bausch Tanztheater Wuppertal. Colaborou também com os artistas Dominique Gonzalez-Foerster e Jeremy Deller. O seu trabalho foi apresentado no Tank — Tate Modern, na Bourse de Commerce, no Centre Pompidou, no Guggenheim Bilbao, no Noor Riyadh, no Desert X, no Art Basel Parcours, bem como nas Bienais de Lyon, Gwangju e São Paulo.
Em 2023, lecionou no mestrado em Performance da Universidade de Arquitetura de Veneza. Cecilia Bengolea vive e trabalha entre Buenos Aires e Paris, continuando a explorar o corpo enquanto lugar de convergência de forças espirituais, políticas e ecológicas.
• Solar - Galeria de Arte Cinemática
• Local: Morada: Rua do Lidador, 139 4480-791 Vila do Conde
• Data: 19.09 a 07.11.2026